sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Brasil e o “custo lavoura”

Um dos temas mais recorrentes em qualquer debate sobre a macro-economia nacional é o sempre mencionado “Custo Brasil”, jargão do “economiquês” usado para descrever o conjunto de fatores que encarecem os investimentos produtivos no país,  como corrupção, déficit elevado, carga tributária alta, logística precária, falta de mão de  obra qualificada,  entre outros. A indústria, sempre hábil na pressão política, sempre menciona o custo Brasil como uma ameaça à competitividade brasileira, conseguindo, em nome disso e da crise, subsídios diretos através da redução de IPI e outros favores. Na maior parte dos casos, os aspectos do Custo Brasil se fazem presentes de forma mais ou menos equânime em todos os setores produtivos. Estrada ruim e porto ultrapassado é problema tanto para a indústria quanto para o campo ou setor de serviços. Mas há alguns custos nesta conta, que só sente quem é produtor rural, e são uma ameaça severa ao setor mais competitivo da economia nacional: o “custo lavoura”,  ou seja, o alto preço dos insumos e dos agroquímicos.
           
Segundo dados da assessoria econômica da Farsul, o alto valor que o produtor paga por insumos é hoje o maior componente do custo fixo do produtor rural, respondendo por cerca de 20% do seu custo final (o custo da logística é mais variável. No Sul, chega a 17%. Nos Estados do Centro Oeste, mais distantes dos portos principais, pode chegar a 50%). Um produtor brasileiro chega a pagar 20% a mais do que um produtor argentino pela compra de um insumo equivalente. E isto se deve à falta de inteligência do governo em tributar diretamente os insumos, elevando seus preços, quando não faz sentido algum tributar bens de capital. Numa economia de mercado que fosse digna deste nome, este seria um problema fácil de resolver, bastando ao produtor importar seu insumo de onde fosse mais barato. No entanto, graças às terríveis assimetrias do país na sua relação com o Mercosul, o produtor não conta com a opção da importação direta, em mais um regramento que, além de oferecer  um obstáculo inexplicável ao produtor, fere a lógica do mercado e a liberdade de comércio.
           
Diante deste cenário, alguns “gênios” do governo federal dizem que a culpa é do produtor, que optou pelo “modelo agroempresarial”, em detrimento de um sonho dourado da agricultura familiar. Foge a estes senhores o fato de que é justamente este modelo tão criticado o responsável pelo fato de o país aumentar, ano após ano, sua produtividade sem aumentar na mesma proporção a área plantada, beneficiando inclusive os agricultores familiares, que hoje consolidaram um nicho de mercado. Portanto, ao ignorar seu dever de abolir as exigências que impedem o produtor de diminuir seus custos e oferecer um produto a melhores preços para seu consumidor, o governo prejudica não apenas os produtores rurais (contra quem seu preconceito ideológico parece nunca se esgotar), mas também aos agricultores familiares, aos municípios e Estados agroexportadores, e ao consumidor interno, para quem é destinada mais de 70% da produção nacional.  Ou seja, entre várias opções, na hora de planejar nossa política agrícola, é seguro contar que o governo optará sempre pela ineficiência e pelo atraso.
           
            Tarso Francisco Pires Teixeira
            Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel
            Vice Presidente da Farsul                               

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